PortugueseEnglish



Dr. Victor Matsudo

dr_victor

Médico do Esporte e Ortopedista. Vice-Presidente do Conselho Internacional de Ciências do Esporte - ICSSPE. Coordenador Geral do Programa Agita São Paulo & Coordenador Geral do CELAFISCS. Consultor para Área da Atividade Física da Organização Mundial de Saúde. Membro do Comite de Relaçoes Internacionais do American College of Sports Medicine.

facebook twitter google flickr orkut

Veríssimo, Luis Fernando

Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre em 1936. Consagrou-se como um dos mais importantes escritores do pais, com uma obra vasta... incluindo romances, crônicas, quadrinhos, infantojuvenis, muitos adapatados para cinema, teatro e TV. Mestre da narrativa curta, assina colunas diárias na imprensa brasileira.

Pg 7: O tempo não tem pontos fixos,  o tempo é uma sombra  que dá a volta na Terra. Ou a Terra é que dá voltas na sombra. Nossa única certeza é que será sempre a mesma sombra - o que não é uma certeza. É um terror.

Pg 23: - Alo
- Alo! Sim. Olha. Para começar, o calor está infernal. Não dá para diminuir o aquecimento no quarto?
- Não senhor. Esta é a nossa temperatura ambiente normal.
- Outra coias: a televisão só pega um canal. Que está dando uma reprise de Janinie é um gênio.
- Sim senhor. Só tem esse canal, e é sempre a mesma reprise.
- Mas... Isso aqui é inferno!
- Não senhor. É o purgatório. No inferno a reprise de Janinie é um gênio é dublada em espanhol!

Pg 49: Outra coisa: psicologia. Fui da primeira geração criada com psicologia. Nada de castigo – comentou. Ele rabiscou toada a parede? Está tentando expressar alguma coisa. É, usou o batom da mãe? Ih, cuidado, uma surra agora pode deflagrar um processo de introjeção edipiana e traumatizá-lo para sempre. Também fui da primeira geração que, com a invenção da calculadora de bolso, não precisava decorar a taboada. Resultado: cresci sem a noção de duas coisas importantes: pecado e matemática.

Pg 57: Eu deveria ter desconfiado que o nariz arrebitado não era tudo. Que ela tinha me enganado esse com seu jeitinho de falar, com o apelido que me deu: Guguinha, veja o senhor: Guguinha, que só depois de descobrir ser o nome de um cachorro que ela teve quando era pequena e morreu atropelado.

Pg 84: A recusa da morte é a mãe da filosofia. A idéia de deixar de existir é profundamente repugnante para o nosso amor próprio. Aceitando a morte como um consolo, como um álibi, eu também estou me livrando desta absurda pretensão de meu ego, que é a de que eu não posso simplesmente acabar. Logo eu, de quem eu gosto tanto. Por isso se inventam religiões, e mil e uma maneiras da vida continuar, nem que se volte como um cachorro.

Pg 115: É por isso que eu gosto dessas revistas femininas. São puro sexo...Cento e dezessete maneiras de atingir o orgasmo usando utensílios domésticos, incluindo o marido.

Pg 128: A preguiça não quer nem saber. A preguiça é um macaco que deu errado, um equivoco da evolução, e ele se esforça para não chamar atenção para o erro. Se me descobrirem, me extinguem. Uma vez perguntaram a Darwin sobre a preguiça e ele fingiu que procurava um lápis embaixo da mesa. Todo animal tem uma função no universo. Pode ser a mais prosaica, como comer formigas, mas tem. Menos a preguiça, A preguiça não serva para nada. É uma expectadora do drama da criação. E mesmo como espectadora é incompetente, pois vê tudo de cabeça para baixo. Ao contrario. O sol não se levanta para a preguiça, ele cai do horizonte como um ovo da galinha. O céu é o chão e o chão  é o céu da preguiça. O espantoso é que com tanto sangue lhe subindo a cabeça a preguiça não tivesse desenvolvido o melhor cérebro do mundo animal.  Há quem diga que desenvolveu, que a preguiça já pensou em tudo e resolveu que não valia a pena. Com duas semanas de existência, como  sangue fazendo o cérebro crescer duas vezes mais depressa do que o de qualquer outra espécies, a preguiça já tinha esquematizado toda a progressão da vida na Terra, desde o homem macaco até Clovis Bornay, desde a roda até o foguete e desde o tambor tribal ate a ONU. E desistiu, antes de começar...Para a preguiça nenhuma crise é novidade: o mundo está de pernas para o ar há muito tempo.

Pg 130: (falando de seu conhecimento profundo sobre a Sandrinha)... Inventei uma ciência exotérica, de um praticante e de um interessado só. Não posso dar cursos, publicar teses, formar discípulos. Participar de congressos sobre a Sandrinha. Sou doutor em nada. Doutor em saudade. Entende? Desperdicei dez anos numa especialização inútil.

Pg 133: A melhor historia de garrafas e bilhetes que conheço é a de um anuncio, acho que do uísque Chivas Regal. Um cartum mostra alguém na praia lendo um bilhete retirado de uma garrafa trazida pelas ondas. O bilhete diz: "Estou em uma ilha deserta, só eu e oitenta garrafas de Chivas Regal, que sobraram do naufrágio. Por favor, não mande ajuda!"

Pg 172: Um dia vocês lembrarão dessen período em suas vidas e se perguntarão: Como podemos ser felizes com tão pouco? É o que os franceses chamam de "Nostalgie de La privacion".

Sufle de queijo 2

Jorge está tentando convencer Marta, sua esposa, sobre a importancia do jantar que o novo chefe teria em sua casa e que deveria usar um vestido mais decotado.

- Não, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu suflê é um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Este jantar pode decidir a nossa vida, Marta. Preciso que vc faca sua parte.
- Mostrando os peitos...
- E não só isso.
- Não só isso Jorge?!
- Marta,chegou a hjora de saber o que vc está disposta a fazer pra mim, Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por nós.
- Como assim?
- Vc sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o suflê estive ficando quase pronto. Os últimos minutos são cruciais para um suflê de queijo não passar do ponto. E você vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
- Jorge, vc é que está passando do ponto.
- Marta, isto não é hjora de pensar em fidelidade, em motal, em mais nada. É hora de pensar no meu emprego e na nossa renda. É hora de você pensar nas prestações do seu cartão de crédito, Marta...
- Mas...
- Vá botar o vestido decotado!
Chega o novo chefe para o jantar
- Marta, esse é o Ciro. Ciro, está a Marta, minha mulher. É evidente a surpresa na cara de Ciro.
- Sua mulher?
- É
- Eu não sabia que você era casado.
- Sou, sou. E bem casado.
- Prazer – diz Ciro, estendendo uma mão languida para Marta apertar. A decepção substituía a surpresa no seu rosto.
Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo. Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o suflê no forno.
- Acho que ele está a fim de você, Jorge.
- Nem brincando, Marta.
- Chegou a hora de saber o que vc está disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por nós , Jorge.

Em Algum Lugar do Paraíso
Rio de Janeiro, Objetiva, 2011.

 

Add comment


Security code
Refresh